Projeto Co

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Paula Petreca

Paula Petreca, bailarina e diretora artística do Projeto Co

No vai e vem das grandes cidades em que vivemos, diversas coisas passam desapercebidas aos nossos olhares, ruas, praças, esquinas, jardins, escadarias e tudo o que engloba o cenário urbano.

E pensando em interagir com todo esse elemento urbano, a bailarina e diretora artística Paula Petreca, nos apresenta o Projeto Co que surgiu em 2010 com o intuito principal de realizar a interação do corpo com os espaços públicos, seja através da dança ou apenas estando junto colocando em evidência e criando uma relação com todo o cenário.

Nós do Além do Sofá realizamos uma entrevista com Paula Petreca onde ela nos contou um pouco mais sobre todo seu belo projeto. Confira abaixo e não deixe de viver uma vida além do sofá!

1) Como surgiu a ideia para a realização do Projeto Co?

O Projeto Co surgiu em 2010, quando eu ainda morava em Portugal. Em princípio não havia a ideia de funcionar como uma companhia. O que eu queria era ter uma rotina para exercitar a criação de dança em espaço público, em contato com as pessoas. Por isso criei esse projeto, que nasceu de forma bastante experimental, convidando artistas de outras áreas (artistas sonoros, escritores, poetas, fotógrafos e videastas), propondo para todos eles e para mim mesma uma pergunta: como criar uma arte com a cidade, engajada em suas rotinas, em suas questões, sem se sobrepor ao que já acontece, mas integrando o movimento da vida. Como co-existir. E foi assim que tudo começou. Em 2012 quando eu voltei para o Brasil, todos meus parceiros de criação ficaram do outro lado do oceano, por isso eu tive de repensar o projeto. No princípio considerei que o Projeto Co seria minha pesquisa solo, o estudo ao qual dedicaria minha invenção… Mas conforme eu ia dando aulas, e me apropriando de ideias e procedimentos que ia desenvolvendo artisticamente no Projeto Co, surgiu o interesse de experimentar esse criar de dança de forma engajada, integrada e co-existindo com mais pessoas da prática corporal. Comecei a trazer pessoas interessadas, que faziam aula comigo, e assim a ideia de companhia foi surgindo. Estamos pesquisando em grupo desde 2012, e isso trouxe mais camadas para a questão.

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2) Qual o principal conceito da companhia?

A principal ideia é co-existir, estar junto, dançar com. Quando pensamos a criação de uma dança, gostamos de pensar sempre na ideia de co-autoria, de que somos co-autores da elaboração de algo que só acontece com o espaço e seus fluxos de vida. Buscamos cada vez mais criar danças que dependam do que a rua traz, do que o olhar do passante traz, do que a arquitetura e a geografia trazem. A ideia é nunca dançarmos isolando-nos de tudo que nos cerca, como se estivéssemos num palco ou numa sala fechada, mas criarmos relações com o ambiente vivo que é a cidade, dando visibilidade para a textura do urbano.

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3) O nome Co vem da relação entre corpo e ambiente, sendo assim, como é exposta essa relação para o público entender a mensagem proposta?

Não acreditamos muito que a arte possa ter uma mensagem que seja apenas inteligível, compreendida intelectualmente. O que buscamos com nossos trabalhos é compartilhar uma forma de estar no mundo, que é uma maneira integrada e sensível. Tentamos sempre nos comunicar pela via do sensível, dos sentidos, da memória, do imaginário e da sensorialidade. Muitas vezes criamos uma situação que facilite o público estar na cidade (como por exemplo colocando bancos confortáveis, criando um pic nic), e buscamos assim oferecer a quem vem assistir algo uma experiência. Muitas vezes quem vem assistir se depara com esse convite para estar na cidade e para presenciar nossas obras, do que com uma obra fechada com uma mensagem a ser passada.

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4) Quantas pessoas fazem parte do projeto? Cada uma exerce uma função diferente?

Atualmente o projeto conta comigo na direção, com um produtor executivo, com sete bailarinos-performers, com uma diretora de arte e um dramaturgo. Sempre convidamos profissionais da fotografia, do vídeo e do som/música para colaborar nas criações, o que faz mais gente circular pelo grupo.

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5) Costumam atuar em lugares estratégicos? Como vocês escolhem os locais onde irão se apresentar?

Sim costumamos escolher nossos lugares de apresentação a partir dos apontamentos dramatúrgicos dos trabalhos (temos uma peça para escadas, uma para jardins, uma para lugares altos, uma para praças e outra para esquinas). Cada peça estabelece relações com o tipo de circulação e convívio que se encontra no lugar, por isso para além do local é importante escolher os horários de apresentação (pela luminosidade, pelo fluxo de pessoas, pela quantidade de movimento urbano presente no espaço).

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6) Como são criadas as performances? Existe algum tema para cada ‘insight’ nas intervenções?

Nos últimos anos temos criado uma metodologia de trabalho que tem dois pilares centrais: uma ação de pesquisa cartográfica e outra de pesquisa corporal. A pesquisa cartográfica consiste na criação de mapas de observação do território onde iremos atuar, tentamos inventariar seus espaços, seus agentes, as ações que nesse local ocorrem, quais são os hábitos, os usos os costumes… A pesquisa corporal consiste num trabalho de sensibilização, percepção e tonificação a partir de uma técnica chamada de Vertical. Quando mapeamos e reconhecemos as principais características do território de trabalho, começamos a jogar com princípios da técnica vertical, percebendo como eles se recontextualizam no encontro com o espaço. Geralmente os trabalhos nascem assim. O trabalho da vertical é muito poético e traz um grande imaginário para nos apoiar nas propostas que fazemos para a rua.

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7) O Projeto Co recebe algum apoio para incentivo da cultura?

Não temos nenhum tipo de apoio estável. Pleiteamos editais pontuais, como todos grupos independentes do país, e quando conseguimos ser contemplados temos recursos para criar. Quando não conseguimos subvenção, continuamos a pesquisa de forma mais modesta, com recursos próprios, vindos da atuação docente que toda equipe artística do grupo exerce.

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8) Já foram premiados por alguma criação?

Não. Apenas contemplados em editais.

9) Como a companhia visualiza o cenário cultural atual no Brasil?

É um cenário árido. Há poucas pautas de artes em geral descentralizada fora das capitais, e assim o incentivo a cultura acaba ocorrendo majoritariamente pelo caminho dos editais, que é uma via que subsidia a criação mas não a subsistência dos grupos. Como morei na Europa um tempo, e vi políticas culturais de difusão muito eficazes com programação de dança, teatro, música, exposições, incentivo a cultura, ocorrendo por todo um território, em cada pequeno vilarejo… Vislumbrei outro caminho possível para o trabalho artístico. No Brasil, a televisão, a grande mídia, confundem arte com produto de massa, e isso não valoriza a produção mais profunda, artesanal.

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10) No término de cada intervenção, que mensagem vocês deixam para o público e qual vocês levam para casa?

Sempre somos transformados pelo contato com o humano e com o imprevisível. Aprendemos sobre doçura, sobre sensibilização, sobre contato do ser consigo próprio, sobre reflexão, sobre transformação… E também sobre violência, sobre bruteza, sobre intolerância, sobre ódio. Tudo isso está na rua. O que tentamos propiciar é sempre uma transformação daquele que vem assistir, de sua relação pessoal com a cidade. Se conseguimos, mesmo que por momentos, desfazer um medo por andar em tal via, um conforto por sentar-se sob o sol, um despreocupar-se por correr atrás do tempo, sinto que já conquistamos algo com nosso trabalho. As pessoas costumam nos dizer, que depois de assistir um trabalho nosso, o lugar para elas se transforma para sempre. isso nos interessa muito. Criar memórias, criar afetos.

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Projeto Co11) Para finalizar, gostariam de deixar um recado especial para os leitores do Além do Sofá?

Espero que continuem sempre buscando aproveitar a vida de forma intensa e longe do sofá.

Conheça mais o Projeto Co acessando seu site e não deixe de conferir sua página no Facebook.

Agradecimentos a Paula Petreca.

Antes de ir, não deixe de acompanhar nossa página no Facebook e nos seguir no Instagram e no Twitter!

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27 anos, pisciana, paulista e reikiana. Co-fundadora do blog Além do Sofá. Adora temas místicos e esotéricos, curte um bom rock, gosta de experimentar comidas e bebidas diferentes, além de saber aproveitar cada viagem que faz.

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